[em guerra]
Ontem à noite estávamos eu e minha grande (???) amiga Fernanda (Zazá) nos embriagando e tecendo elucubrações espantosas a respeito da vida. Uma hora ainda vou falar dela e o quanto sua presença (e de sua linda filha, Rafaela) são importantes para mim.
Combinamos desde cedo a tomar aquela cervejinha pós-expediente e decidimos que seria em minha casa, porque a Rafa ainda não pode frequentar outros lugares.
Chegando em casa, percebemos uma movimentação incomum na minha rua. Meus vizinhos de frente recebiam diversas pessoas em casa, algo pouco observado durante todos os 22 anos que vivi por aqui. São pessoas meio reclusas, nunca fizeram uma recepção ou festa que eu possa me lembrar.
A dona da casa estava lá. Recebia os vizinhos, os amigos, pessoas que nunca vi frequentando minha rua. Um semblante indefinido, nada diferente do que eu sempre vi e notei. Sempre foi uma pessoa amável, dócil, participativa. Nunca se mostrou indiferente às pessoas com quem conviveu em nossa rua. Era líder em um domínio restrito, que cada vez menos relevava sua existência. Porém ela sempre esteve ali, impassível diante das mudanças. Cuidando de seu cotidiano limitado, inexpressivo, ao menos ao alcance da minha também limitada visão.
Seu relacionamento conosco nunca foi muito próximo, talvez porque fôssemos aquelas pessoas mais frias, menos suscetíveis às questões que se passavam ao nosso redor. Meus pais sempre estiveram entretidos com suas questões profissionais e nós, minha irmã e eu, somos meio tímidos, distantes. Tivemos poucos momentos com o pessoal da nossa rua, mesmo porque as pessoas se mudavam e os laços pouco se estreitavam. É claro que houve um distanciamento meio proposital, uma coisa quase classista. Enfim, crescemos, mudamos de círculos. Não somos próximos.
Mesmo assim, sempre observei, com alguma obtusidade, o comportamento daquela senhora. É uma rotina praticamente imutável. Ela acordava sempre cedo e, às 5 ou 6 da manhã, abria o portão para que seu marido saísse com seu automóvel e se dirigisse ao trabalho. Logo que começava o movimento da rua, ela saía de casa.
Exercia ali sua liderança, se preocupando com os problemas alheios que se apresentavam. Uma pessoa solícita, por assim dizer.
Às 22:00h, escutava o tilintar das correntes do portão que eram por si destrancadas. Com pontualidade inglesa, o marido voltava e ela desaparecia. Assim foi desde que eu possa me lembrar.
O marido sempre trajava roupas brancas, motivo pelo qual entendia ser o mesmo profissional da saúde. Em 22 anos morando no mesmo endereço, nunca troquei uma palavra sequer com ele. Descobri, por terceiros, se tratar de um dentista.
Nunca vi qualquer movimentação anormal em sua casa. Mas na noite de ontem várias pessoas entravam em sua casa durante a noite, o portão estava aberto. Não vi aquele tilintar de correntes ou o ronco do motor do carro. Só percebi o movimento incomum.
Como sempre, me abstive de me mobilizar para descobrir a razão daquilo. Não sou íntimo e seria uma atitude no mínimo indiscreta me diligenciar para entender o que ocorria. Quando amanheceu, recebi a notícia da morte do marido daquela mulher. Foi fulminado por um aneurisma. Daí a movimentação incomum.
Hoje, não vi movimentação alguma. Nenhum carro entrou ou saiu. Não escutei as correntes sendo abertas pela manhã. Não presenciei qualquer coisa à noite.
Aquela vizinha, após 22 anos, mudou sua rotina.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
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